Macas tomam os corredores dos grandes hospitais públicos da Capital. Semana passada, 256 estavam no IJF, HGF, Hospital de Messejana e Albert Sabin
Tem mais paciente nos corredores do que nos leitos de emergência dos grandes hospitais públicos da Capital. Na semana passada, eram 256 macas espalhadas entre o Instituto Doutor José Frota (IJF), Hospital Geral de Fortaleza (HGF), de Messejana (HM) e Infantil Albert Sabin (Hias). O número acaba sendo superior ao total de leitos disponíveis para a emergência nessas unidades, que são 248.
No IJF, por exemplo, eram 155 pacientes em macas pelos corredores. A ocupação é quase quatro vezes maior que a prevista no setor de emergência, que conta com 40 leitos. O POVO visitou as emergências dos quatro hospitais públicos terciários, ou seja, de alta complexidade, e verificou a peleja dos pacientes em conseguir vaga nos leitos. Gestores públicos reconhecem a gravidade da situação - que se repete ao longo dos anos.
No único hospital terciário de trauma do Estado, o IJF, tem paciente que aguarda há um mês por cirurgia. O elevado número de macas pelos corredores impressiona. São, na maioria, motociclistas ou idosos, traumatizados, em busca de cirurgia. Cerca de 50% da demanda vem do Interior. A superlotação é tamanha que, em alguns momentos, os maqueiros têm dificuldade em circular com os pacientes que precisam realizar exames de imagem.
O diretor executivo Casemiro Dutra alerta que o envelhecimento da população e o aumento da violência no trânsito têm impacto direto na demanda. Ele explica que o aumento de leitos de emergência na unidade pode ser uma solução perigosa. “A concentração é perigosa, devemos atuar no processo de descentralização. Não é justo o paciente sair de um município longe para conseguir atendimento de politraumatismo”.
No HGF, o cenário de superlotação é semelhante. Pacientes são divididos por especialidade em um imenso salão que deveria servir como recepção da unidade. Durante o dia, o sol que passa pelos imensos janelões de vidro incomoda os pacientes. Quase não há espaço para os acompanhantes, que dividem o banheiro com pacientes.
Acidente vasculares cerebral (AVC), doenças renais,neurológicas e digestivas são as mais comuns. O diretor geral Zózimo Medeiros atenta para o número de pacientes fora do perfil de gravidade que chega à unidade. “É preciso fortalecer o acolhimento com classificação de risco. Muitos pacientes deveriam estar na rede secundária”, alerta.
Pacientes graves com doenças pulmonares e cardíacas se acumulam também nos corredores do Hospital de Messejana. Recentemente, a unidade ganhou uma ampliação na emergência. O número de leitos dobrou, chegando a 100 vagas. Porém, a demanda continua sendo maior que a prevista. Cerca de 25 pessoas estão nos corredores.
A diretora geral Socorro Martins ressalta a importância do fortalecimento da rede básica e secundária para garantir que o paciente crônico consiga tardar cada vez mais sua ida ao hospital.
As crianças não estão imunes a essa questão. No Hospital Infantil Albert Sabin, cerca de seis crianças e adolescentes estão nos corredores. Entretanto, os pacientes ficam em camas hospitalares e não em macas – como nas demais unidades de atenção terciária.
O diretor do Hias, Rogério Menezes, explica que o segundo semestre é considerado menos crítico. Mesmo assim, a demanda é superior ao número de leitos. São apenas 12. No primeiro semestre, época de maior incidência de doenças virais, a emergência chega a abrigar 30 pacientes.
O quê
ENTENDA A NOTÍCIA
A situação de superlotação nas emergências se repete nos quatro hospitais de alta complexidade da Capital. Ao todo, existem mais macas nos corredores do que leitos de emergência. O POVO acompanhou a dificuldade dos pacientes conseguirem vaga. Gestores públicos reconhecem a gravidade da situação - que não é nova.
Saiba Mais
Atenção primária
Também denominada de atenção básica se refere à assistência preventiva e de controle de doenças como diabetes, hipertensão. Atende casos de gripe, diarreia, lesões simples de pele, dor de cabeça, faz hidratação oral e venosa, prevenção ginecológica. O atendimento é prestado nas unidades básicas de saúde (postos de saúde) e pelas equipes do Programa Saúde da Família.
Atenção secundária
O atendimento é oferecido nos hospitais secundários e centro de especialidades médicas. Em Fortaleza, a população dispõe desse serviço nos hospitais Gonzaguinhas do José Walter, de Messejana e da Barra do Ceará; nos Frotinhas da Parangaba, Messejana e Antônio Bezerra; e no Hospital Nossa Senhora da Conceição.
Atenção terciária
O atendimento é constituído por serviços ambulatoriais e hospitalares especializados de alta complexidade e alto custo, tais como serviços de urgência e emergência e atenção ao paciente grave. São considerados hospitais de alta complexidade: Instituto José Frota (IJF), Hospital Geral de Fortaleza (HGF), Hospital de Messejana e Hospital Infantil Albert Sabin (Hias).
Raio X das emergências
Instituto Dr. José Frota (IJF)
Número de leitos de emergência - 40
Macas no corredor - 155
Situação - as macas com pacientes vão se acumulando nos corredores do hospital. Muitas pessoas acabam finalizando o atendimento sem passar por um leito de emergência. Maqueiros tem dificuldade em circular com pacientes que precisam ser encaminhados a exames.
Hospital Geral de Fortaleza (HGF)
Número de leitos - 96
Macas no corredor - 70
Situação - a área que deveria ser para a recepção acaba abrigando dezenas de pacientes em macas. Cerca de 70 pessoas de várias especialidades se aglomeram no pátio. De dia, o sol forte acaba incomodando os pacientes e deixando a área mais quente. Acompanhantes improvisam com lençóis nas janelas como tentativa para amenizar a situação.
Hospital de Messejana (HM)
Número de leitos - 100
Macas no corredor - 25
Situação - mesmo com a ampliação no número de leitos de emergência, a situação ainda é preocupante. Cerca de 25 pacientes precisam ficar nos corredores aguardando vaga nos leitos. Pacientes com doenças respiratórias e cardíacas ficam na mesma área, aumentando as chances de infecção.
Hospital Infantil Albert Sabin (Hias)
Número de leitos - 12
Macas no corredor - 6
Situação - mesmo sendo considerado um período tranquilo – já que muitas das doenças infantis se apresentam sazonalmente – existem crianças aguardando por leito nos corredores do hospital. No primeiro semestre, quando se intensificam as doenças virais, a emergência chega a acumular 30 crianças nos corredores.
248 - Número de leitos de emergência
256 - Número de macas nos corredores
504 - Total de pacientes na emergência
Leia amanhã
O Ceará é o único do Norte e Nordeste e segundo do Brasil a oferecer residência em Emergência. A luta é para que essa especialidade seja reconhecida. Antigos e atuais gestores da saúde pública falam sobre ações rápidas e práticas para reverter a situação de superlotação nas emergências.
Viviane Gonçalves
vivi@opovo.com.br
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